23/02/11

Festa de Iemanjá


No último sábado, dia 12 de fevereiro, tivemos em nossa casa a festa em homenagem a Iemanjá, evento muito especial para todos nós.
Como em todos os sábados acordei cedo, tomei meu banho de ervas e comecei meu preparo para a reunião que realizaríamos naquele dia, tudo perfeitamente normal a não ser por um detalhe que muito me alegrou, estava acompanhado de minha mãe, grande amiga e referência na minha caminhada espiritual.
Íamos trocando experiências e relembrando fatos interessantes, antes de nos dirigirmos ao terreiro fomos colher as folhas de Iemanjá que serviriam como elemento energético para auxiliar os médiuns e como decoração da nossa festa.
Enquanto colhia as folhas junto de quem sempre me ensinou o valor e a importância da erva correta colhida com respeito e reverência no trabalho que realizávamos fui transportado ao passado, relembrando aquele que talvez tenha sido meu primeiro amor.
De volta a infância, na casa daquela que foi para mim minha avó, e ainda hoje enche nossos corações de saudade pela falta que a sua presença nos faz, eu observava no belíssimo quadro da sala de estar uma moça de encantadora beleza, seus longos cabelos negros em perfeita harmonia com a curiosa expressão do seu olhar, que ao mesmo tempo transmitia doçura e força, paz e confiança. Seu longo vestido azul se confundia com as ondas do mar, seu corpo de medidas perfeitas destacava a imponência da misteriosa mulher que caminhava altiva sobre as águas, a lua no céu e a estrela que trazia no alto de sua tiara completavam um cenário marcante pelo poder que representava e que eu, mesmo tão jovem, jamais esqueceria.
Muitas foram as vezes em que me peguei relembrando aquela imagem que durante tantas tardes fiquei a contemplar, o fato é que aquela enigmática figura que trazia em si tanta paz e confiança havia me marcado para sempre, e o amor que nascia por aquela moça que tanto me impressionara e que só mais tarde eu entenderia já estava em mim, e seguiria comigo por toda a minha caminhada. Ervas colhidas, preparações realizadas, seguimos rumo a Casa de Xangô, afinal era dia de festa e havia muito a ser feito.
Chegando ao terreiro e encontrando um filho e amigo que já havia chegado e trabalhava na organização da entrada de nossa casa comecei a sentir a energia que envolvia o ambiente, espaço sagrado onde vibram as forças dos nossos Orixás, onde nossas dúvidas se transformam em certezas, onde tudo perde a importância diante da onipotência do Criador.
Rapidamente fui tomado pela confiança no Senhor da Justiça e a força que faltava me envolveu para que eu pudesse começar meu trabalho.
Firmezas de segurança realizadas, casa limpa e perfumada, assentamentos renovados, cadeiras nos lugares para receber os visitantes, velas acesas, ervas colhidas e essências preparadas. Os filhos, um a um, começam a chegar. Abraços, sorrisos, flores e pedidos.
É possível sentir o clima de festa, a harmonia na corrente e a presença de nossos guias espirituais. Iemanjá, em sua grandeza, se mostra presente nos mínimos detalhes.
No brilho nos olhos dos filhos-de-santo, na delicadeza com que cada uma das filhas ia dando seu toque final à arrumação das flores, no sorriso dos assistenciados que chegavam e se deparavam com a belíssima mesa montada em frente ao altar.
Sim, o Orixá faz-se presente em nós, iluminando nossas estradas, nos fazendo enxergar os desígnios de Deus em nossas vidas.
Todos de branco, ouve-se o sino de Oxalá, o silêncio toma o salão e mais um dia de trabalho se inicia. Falo sobre a importância da festividade, lembrando o circuito das festas do ano que após aberto com a expansão, o conhecimento a fartura e a prosperidade de Oxóssi é seguido pelo poder criativo de Iemanjá, portadora do Divino Dom da Vida, senhora que gera em nossas vidas todas as bênçãos e alegrias, tudo aquilo de que necessitamos para viver e evoluir.
O turíbulo com as brasas chega até nós, logo o doce cheiro de incenso e alecrim perfuma o ambiente, limpando nosso astral e elevando nossas vibrações até o Pai.
Convido minha mãe para realizar a palestra, que certamente falou fundo aos nossos corações e mentes quando discorreu sobre a grande viagem e principalmente a mala de cada um, que até agora tem sido motivo para repensarmos várias das nossas atitudes.
Realizada a saudação aos nossos guardiões e as orações de abertura iniciamos os cantos de louvação aos nossos Orixás, logo Ele se faz presente, O Senhor da Justiça, Patrono da Casa, O Rei das Pedreiras e do nosso destino, Xangô, O Dono do Axé. Grande é a força de sua presença, emocionando a todos, trazendo fé, firmeza, coragem e confiança.
Prosseguem os cantos de louvor e agradecimento, sinto me envolvido pela energia da doce e encantadora senhora do ouro, chamo a presença de uma de suas filhas em frente ao altar, é entoado um de seus cantos e lá está Ela, mãe do encanto e da riqueza, senhora absoluta das cachoeiras, representante máxima do Amor de Deus, com sua graça e beleza ao som do seu Ijexá, enchendo nossos corações de amor, alegria e doçura, Oxum é aquela que cativa a todos por onde passa, seu olhar e seu abraço são indescritíveis.
Oxum, na sua infinita bondade, abrilhantando nossa festa intensifica sua energia em nossa casa e trazendo suas enviadas nos faz vibrar amor e devoção, sermos melhores a cada dia, buscando sua pureza, seu amor e sua doçura em nossas vidas. Num instante todos os médiuns são tomados pela força de Oxum, meu coração se enche de alegria, Oxum se mostrava contente e orgulhosa, nos brindando com sua presença.
Terminada a saudação os nossos Orixás, elevamos nosso pensamento e em oração pedimos a presença de nossos mentores espirituais.
Seu Cacique vem em terra, com sua grande sabedoria e atenção, faz questão de abraçar a todos os seus filhos, orienta aqueles que precisam, diz-nos algumas palavras e faz a chamada do Sr. Caboclo do Arco-Íris, mentor de grande luz que por muito tempo dirigiu nossos trabalhos, segue a gira chamando-se três guias espirituais trabalhadores de Iemanjá para trazer sua mensagem, Cabocla Jurema da Praia, Cabocla do Mar e nossa querida Vó Ana, que nos trazem lindas palavras de fé e incentivo.
Chamam-se os caboclos e realizam-se os atendimentos fraternos, de passe, consulta, cura e orientação, todos se vão deixando sua energia e o eco de suas palavras sábias.
Seu Arco-Íris está em terra, vou até ele e faço questão de bater cabeça diante daquele que consagrou minha coroa e que pra mim, mais que um grande amigo, é um verdadeiro pai espiritual, conversamos, me emociono com suas palavras, é um dia de muita alegria, Pai Arco-Íris nos congratula pela beleza espiritual da festa, lembra-nos sobre a importância da humildade, de vivermos com alegria e sermos felizes, depois de algum tempo de agradável conversa, se despede de todos e se vai.
Todos se concentram, soam os atabaques, ouve-se uma saudação, em frente ao altar suas velas emitem um brilho intenso, a mesa de Iemanjá irradia axé na força de seu elemento
Em frente ao altar se posiciona uma de suas filhas, ouve-se um canto, a energia se intensifica, os corações vibram, é chegado o grande momento, Iemanjá Yemowô está em terra, Mãe da Vida, da criatividade, das famílias, rainha dos oceanos.
A comoção é geral, todos são tocados pela força da Mãe Maior. Emocionado vou saudar Mãe Iemanjá, que num abraço toca profundamente minha alma e fala ao meu coração.
Uma a uma as enviadas de Iemanjá vêm chegando, trazendo sua luz, sua energia e seu axé, elevamos nossos pensamentos e pedimos a Sagrada Mãe que gere em nós as suas divinas qualidades, fazendo-nos melhores, para que caminhemos evoluindo, crescendo, cercados de amor, alegria, união, e prosperidade, cobertos pelo seu manto de luz e tranquilidade. Que a Divina Mãe das Águas lave nossas almas e nossos corações com suas águas sagradas, no trazendo suas bênçãos de amor e felicidade.
Deixando sua presença em nossas almas e sua eterna luz em nossos corações Iemanjá se vai, os sorrisos dos presentes traduzem a mensagem de nossa mãe.
Após essa experiência única e com a alma cheia de paz chega a hora de recebermos nossos amiguinhos de todos os momentos, nossas queridas crianças, que com sua alegria e pureza nos trazem novo ânimo e muitos risos, comandados por Marquinhos, o mais peralta de todos, chegam fazendo a festa, orientando, brincando, ajudando e alegrando a todos.
Encerrando com chave de ouro, a presença daquela que é mãe, irmã, amiga, orientadora, companheira, e principalmente guardiã maior de nossa casa. Dona Rosa e seu povo estão conosco. As palavras ácidas, inteligentes e fundamentais de Dona Rosa mais uma vez nos fazem pensar, desejar uma vida melhor a cada dia, desejar sermos melhores e mais felizes, nos trazendo o estímulo e a força para vencermos todos os obstáculos.
Mais um trabalho se encerra, emocionado, com o coração repleto de paz e o sentimento de dever cumprido vamos para casa, com a certeza íntima de que este dia jamais se apagará de minha memória imortal, mais uma vez Mãe Iemanjá me abençoou.
Que esse dia tão especial seja para sempre fonte de alegria, amor e satisfação na vida de cada um e que a Mãe da Vida ilumine a todos, hoje, amanhã e sempre.
Um Grande Abraço
Henrique

Um comentário:

  1. Muito bom, adorei o texto, este dia realmente será inesquecível em nossas vidas, fiquei muito feliz, e levei as bençãos que minha mãe me trouxe.
    Um grande beijo Kátia

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